De quem foi e poderia ter sido para quem foi e quem é.

Uma jornada pelo luto. 


    Há poucas certezas na vida, geralmente a unanimidade se dá em relação à morte. Assunto tabu, falhamos na naturalização de uma temática tão importante, porém todos somos subjugados às leis naturais de nosso universo, todos nascemos, crescemos e morremos.

    Em consequência de nossa falha, o próprio luto torna-se assunto tabu, dificilmente as pessoas falam e se expressam abertamente sobre, talvez pelo fato que quase sempre o assunto finaliza na temática espiritual, existe vida após a morte? A depender da forma que os indivíduos encaram a vida, isso é suficiente para dar início a outra discussão. 

    Bom, primeiro é relembrar que o luto não se dá somente na relação vida e morte, psicologicamente todos os nossos processos de perda, seja de emprego, de amizades ou materiais fazem com que passemos por um luto. Portanto, o luto faz mais parte das nossas vidas do que temos ciência.

    Nos meus vinte e tantos jamais me imaginei na posição em que me encontro, 2020 foi-se meu padrasto, 2022 minha grande amiga/irmã Beatriz, 2023 meu pai. 3 lutos entrelaçados. 3 relações. 3 dores. 3 alegrias.

    Pouco antes do primeiro luto nem em Deus eu acreditava. Não que seja necessário acreditar em uma divindade, a minha crença ou a descrença do outro não faz com que a divindade exista ou deixe de existir. Ela é completamente alheia às nossas discussões tão pequenas perante à grandeza do Universo

    Para contextualizar, o Nada pareceu fazer sentido para mim. Somos o corpo, vivemos o corpo, morremos com o corpo, vida no sentido estrito, apenas biológica. 
Após a morte. O Nada segue. Não existe sentimento, dor, alegria. O Nada é presente. Eu cesso a existência. 

    Nunca me incomodou essa crença, ou descrença, como queira. É o Nada. 

    Há cerca de 5 anos caí de paraquedas na Doutrina Espírita. Não por sentir a ausência de um deus, mas a filosofia sempre me intrigou. Quem nos diz o que é certo e errado? Por que devemos seguir códigos de conduta? Então me abri a esse estudo, confesso que o fato de ter visto alguns espíritos aqui e ali durante a infância foi um empurrãozinho.

    O que nos interessa disso tudo é que, após estudar e me aprofundar no espiritismo, eu passei a acreditar na vida após a morte. Talvez acreditar não seja a palavra. Eu sei que existe com todas as fibras do meu ser. Essa crença, obviamente, não é exclusividade do espiritismo, acredito que 99,9% das religiões ocidentais possuem alguma forma de vida após a morte.

    Diante disso, o luto se torna mais fácil, mas eu digo e assino embaixo o seguinte: não é suficiente apenas acreditar que a vida existe após a morte do corpo. 

    Não basta as coisas ficarem no campo das ideias, se acredita em algo, é preciso trazer para o dia a dia, nada vale da boca para fora. 

    Frequentemente em nossa dor incorremos no seguinte erro: pensamos no passado que partilhamos com o nosso ente querido e no futuro que não teremos com ele. O que ele poderia ter feito? Como poderia ter sido? Como seria a nossa relação familiar ou de amizade? Ele estaria na minha formatura? E no casamento?

    Falhamos em perceber que muitas vezes nessa fantasia de futuro estamos convidando o sofrimento à nossa porta. Esclareço que não me refiro à saudade natural, mas ao sofrimento excessivo, a fixação na ideia de que jamais teremos aquela pessoa ao nosso lado novamente.

    Isso não é um benefício a ninguém, nem a nós, nem ao nosso ente que encontra-se no mundo espiritual. Quantas vezes sofremos ao lado dos nossos amigos ao ver as lágrimas deles? Será que os nossos entes também não se entristecem com o nosso sofrimento descabido? A razão e o bom senso nos diz que sim. Somos espírito, e não o corpo. 

    Nesses 3 lutos tenho tido a oportunidade de aprendizados. O maior deles e o que quero passar nesse texto é o seguinte: Ao limitarmos a nossa imaginação a quem o nosso ente querido foi e fantasiar sobre como seria o futuro, nos privamos da possibilidade de ressignificar a nossa relação com eles e nutrir nosso laço, que não se quebra com a morte do corpo, mas se alonga até o momento do reencontro. 

    Antes de discorrer sobre, relembro que o certo sofrimento e saudades são completamente naturais! Não é bom e nem saudável reprimir os sentimentos e não existem sentimentos "errados". Minha contribuição é apenas para trazer outra perspectiva nessa temática.

    O processo de luto ou de traumas em geral precisam passar pela ressignificação. Isso no campo psicológico, que não me atrevo discorrer, mas que é importante trazer ao contexto. Essa ressignificação propicia a transformação da dor dilacerante em uma experiência que florescerá o nosso campo emotivo, dada a oportunidade e o tempo necessário. Ao final do caminho podemos vislumbrar como é grande a nossa capacidade em lidar com algo tão delicado e avassalador ao mesmo tempo. 

    Na imortalidade do espírito percebi que esses laços não foram rompidos sem piedade, não preciso imaginar a presença do meu ente na minha formatura, eu sei que ele estava lá. Não precisarei imaginar a minha madrinha e meus pais em meu casamento, eles estarão lá.

    Não é a minha intenção fazer do texto pregação (emoji de vômito), mas compartilho o seguinte trecho de “O Livro dos Espíritos” de Kardec: “Os Espíritos estão em toda parte, ao nosso lado, acotovelando-nos e observando-nos sem cessar. Por sua presença incessante entre nós, eles são os agentes de diversos fenômenos, desempenham um papel importante no mundo moral, e, até certo ponto, no físico; constituem, se o podemos dizer, uma das forças da natureza.”

    Os nossos amados estão ao nosso lado mais do que imaginamos, não há barreira para o espírito que se movimenta no espaço na velocidade do pensamento. Não há distância para o espírito que se comunica pelos laços de nossa afeição.

    Percebi que apesar da “distância” entre os planos, os meus entes continuam vivendo, continuam tendo experiências. Não imagino como seria a vida deles, sei que eles continuam crescendo como espíritos na caminhada da evolução, da mesma forma que eu cresço aqui. Não imagino como seria continuar vivendo com eles, já vivo com eles. Estão ao meu lado, me escutam, me acolhem. Eu os escuto e os acolho. 

    Eles saem do “poderia ter sido” e passam para “quem são”. Não imagino como a relação com o meu pai, com quem não tive contato desde os 5 anos, seria se tivéssemos tido mais tempo. Mas reconstruo essa relação com ele, na medida das nossas possibilidades, hoje. No presente. Oro por ele, desejo que tenha bons dias e que aproveite as oportunidades que a Vida dá a ele. 

    Não imagino como teria sido a vida da Bea ou como estaria a nossa amizade se ela estivesse presente fisicamente. Mas nutro o nosso laço todos os dias, na medida das nossas possibilidades, hoje. No presente. Oro por ela e a encorajo para ser forte, desejo que aproveite as oportunidades que a Vida dá a ela. 

    Não imagino como teria sido se eu tivesse revelado ao meu padrasto a minha sexualidade se tivesse tido a oportunidade. Mas sei que ele sabe e nutro também o nosso laço. Hoje. No presente. Oro por ele e desejo que livre-se de qualquer arrependimento que possa ter tido e que sempre aproveite as oportunidades que a Vida dá a ele. 

    Nossos amores não se perdem. E não nos faz bem rebelar contra as leis naturais de nosso Universo. A vida corporal se extingue. É a lei. Quais os motivos? Não o sei. Sei que existe uma Sabedoria bondosa e justa muito maior do que a minha capacidade de compreensão.


Nota:
Existem diversas lacunas nesse texto viu? Caso alguém tenha alguma dúvida ou queira conversar sobre. Estou por aqui!



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